Sensual Blue (Maio de 2009)

+ o antes:

Sinceramente, não sei como começar a escrever essas linhas. Por mais estúpido que deva soar, sinto minha mente anestesiada, tornando cada passo mais leve, como se caminhasse em câmera lenta.

Mais do que encontrar um artista que conheci há mais de 10 anos, o que aconteceu hoje foi a concretização de um segundo sonho em menos de um ano. Algo que algum tempo atrás eu não considerava possível, apenas nutria uma saudável esperança.

O dia começou com aquela atmosfera cansativa de sempre. Quem mora ou já morou no Japão sabe que acabamos absorvendo o ritmo intenso da vida deles; por isso o sábado, mais que um dia de descanso, é um dia de preparativos para a semana que está por vir.

Mas hoje não consegui fazer nada além de andar pela casa como um zumbi enquanto preparava as coisas para ir a Shinjuku. Ao menos - pensava eu enquanto isso - a chuva tinha dado uma trégua e eu não teria que encontrar o Mana molhada.

Saí de casa por volta das 11:40, extremamente preocupada com o horário, diga-se de passagem. O evento estava marcado para começar as 14:40, mas minha casa fica longe e o único trem que leva a Shinjuku é o local.

Pensei em pegar ônibus até a estação, mas depois de conversar com uma simpática senhora na parada, decidi que chegaria mais rápido se caminhasse. E assim o fiz.

Foi uma ótima escolha, porque pude ir pensando e acalmando um coração que batia acelerado no peito. Essa, aliás, é minha forma de demonstrar felicidade extrema: por fora fico muito mais quieta que o usual e por dentro tento controlar emoções transbordantes as mais diversas.

+ na Marui One:

Cheguei em Shinjuku cerca de uma hora depois. O local estava cheio como sempre e na entrada do prédio da New Marui One já se avistava algumas Lolitas.

Quando cheguei ao sétimo andar da loja, onde se encontra a Kera Shop Angel e local do evento, cerca de 50 pessoas já se amontoavam enquanto seguiam as instruções de meia dúzia de atenciosos staffs.

Tínhamos que mostrar nossos ingressos e colocar nosso nome em um papel próprio. De acordo com o que estava escrito Mana nos daria um autógrafo.

Quase todas as pessoas reunidas usavam MmM, com algumas raras exceções. Mas uma das coisas que mais me chamou a atenção foi a presença de jovens senhores e senhoras em peso, bem como deficientes físicos, todos impecavelmente vestidos e muitas vezes mais bonitos que os mais jovens e saudáveis. Me senti em casa com meus poucos cabelos brancos. Também porque havia uma quantidade considerável de homens usando EGA, o que sempre me deixa feliz porque não uso lolita.

Como era de se esperar, eu era a única com um visual menos feminino (ou algo que o valha), misturando MmM e AatP - pra variar. E a única estrangeira, o que fez os staffs olharem de soslaio para o meu ingresso cada vez que passavam por mim. É que entraríamos por ordem dos números marcados, e apesar de falarem cada um deles alto, como "gaijin" não sou suposta a entender japonês, por isso, segundo a regra geral, precisaria de ajuda.

Aliás, devo sublinhar o quão atenciosos os staffs do evento eram em geral. Pela etiqueta da Marui One em suas camisas creio que eram funcionários da loja. Eles tinham pranchas pra ajudar cada um de nós a escrever o nome. E também conferiam a presença de todos na mesma lista que assinei quando fui pegar meu ingresso no inicio do mês. Além disso, mais de uma vez insistiram para que eu sentasse, pois demoraria a entrar já que meu número era o 118. Mas não estava cansada e havia lolitas com suas saias rodadas, carregando sacolas aparentemente pesadas que fariam melhor uso das cadeiras que eles haviam trazido.

Durante todo esse tempo a versão japonesa do DVD da última turnê européia tocava em uma televisão de LCD próxima. E ao lado dela uma placa explicava o evento para aqueles que passavam por ali e não faziam idéia do que se tratava. O que foram muitos.

E foi assim, admirando a produção das pessoas e a delicadeza do ambiente enquanto assistia ao show que cada um de nós foi chamado para ir a uma sala reservada ter um momento de privacidade com o Mana.

Vi muitas meninas saírem chorando, enxugando o rosto com toalhinhas rendadas e segurando uma sacola da Marui One. Também cheiravam uma das mãos a todo momento, o que me fez lembrar do famoso 'cheiro de doces' que dizem que o Mana tem. Vi também inúmeros rapazes voltando com um enorme sorriso nos lábios. E ao invés de me angustiar com o nervosismo alheio, fui ficando cada vez mais calma. E sou muito grata por isso, porque assim pude aproveitar cada segundo, fotografando mentalmente o momento e as fisionomias. Todos pareciam curiosos de ver uma estrangeira entre eles. E não foram poucas as vezes que me olharam dos pés a cabeça para observar minha roupa.

+ o encontro:

Assim, cerca de uma hora se passou e meu número finalmente foi chamado com outros três. Fizemos fila em ordem ao lado de uma porta que abria estrategicamente para dentro, de forma tal que de onde estávamos não podíamos ver o que se passava lá dentro quando alguém entrava ou saia.

Enquanto esperava minha vez dois dos staffs vieram conversar e explicar como eu deveria proceder no recinto. Ambos me observavam com curiosidade e foram extremamente profissionais em tudo.

Então chegou minha vez. A porta abriu novamente depois que a pessoa anterior havia saído e com uma mesura indicaram que eu podia entrar.

A sala em que nos encontramos tinha o tamanho de um closet. Estava toda enfeitada com móveis e arranjos clássicos e uma luz tênue e amarelada iluminava o local. O sofá onde sentamos, portanto, era pequeno, para duas pessoas apenas, o que não era por acaso.

Quando pisei na soleira da porta avistei Mana sentado de maneira elegante ao lado de uma pequena mesa onde repousavam uma caneta e algumas fotos. Ele me pareceu bem pequeno (em termos de compleição física, não estatura), quase frágil se comparado ao que tenho visto em DVDs e fotos até agora.

Quando me viu e notou minha fisionomia de 'gaijin' o inesperado ocorreu: ele sorriu de forma leve, tímida, muito gentil para meras palavras, o que passou um calor humano enorme. Devido a minha altura, ele - que estava sentado - teve que levantar o rosto um pouco para me ver bem. E como eu, ele olha as pessoas nos olhos.

Meu sorriso seguro e claramente feliz foi o que faltava para derrubar qualquer barreira que eventualmente pudesse existir.

Com gestos delicados ele me convidou a sentar, o que o fiz com cuidado pois estava com medo que minha falta de jeito prevalecesse. Nesse momento olhei-o nos olhos com firmeza, como faço com todos desde sempre, e o que vi simplesmente confirmou minhas expectativas em absolutamente todos os aspectos.

O Mana é belo. Belo e elegante como poucos e nada do que eu escrever aqui irá se aproximar do que vi. Não é uma beleza exótica, não é uma beleza impressionante. É uma beleza que se expande de dentro para fora e seus olhos, expressivos e brilhantes, são janelas perfeitas para isso.

Sua pele é lisa, com uma textura aparentemente macia e a maquiagem que usava era impecável como sempre, mas leve no geral: trazia nos lábios, por exemplo, um batom de tom rosado quase natural. Os olhos, porém, estavam carregados como de costume.

Para minha felicidade, ele usava um dos conjuntos EGA da MmM que estamos acostumados a ver nas Bibles. Provavelmente camisa branca, calça preta de cintura alta e cabelo estilizado de leve. Um perfeito príncipe. Ou assim consigo lembrar por conta da pouca luz da sala.

A primeira coisa que fiz depois de sentar foi entregar a caixa que trazia nas mãos, com presentes e cartas dos fãs brasileiros. Comprei a caixa, as fitas de cetim e arranjos em Ginza, em uma papelaria cara entre a Tiffany e a Bvlgari. Ele merece.

A caixa tinha como base um branco envelhecido e flores azuis que combinavam com um pequeno buquê da mesma cor.

Segurei-a com ambas a mãos, como manda a etiqueta, e comecei meu pequeno discurso com o típico "Ano~..." dos japoneses. Ele me observava com expressão atenta e contente durante todo o processo.

Foi assim que disse que aquelas eram lembranças dos seus fãs brasileiros. Ele meneou a cabeça com um sorriso leve e tomou a caixa das minhas mãos com cuidado.

Em seguida, entreguei o papel com meu nome e, enquanto ele se preparava para escrever o autógrafo, eu disse o que guardei no coração durante um bom tempo:

"Mana-sama, dois anos atrás você me enviou presentes. Do fundo do meu coração, muito obrigada. Jamais irei esquecer esse gesto."

Isso, mais que qualquer outra coisa, pareceu impressioná-lo. Ele abriu um sorriso charmoso, quase involuntário, e murmurou baixinho em reconhecimento.

Com cuidado ele assinou meu nome na foto, Angelica, e me entregou com ambas as mãos. Depois ele estendeu suas mãos e me convidou a segurá-las em silencio. Quando o fiz me dei conta de que tremia de leve, e que minha pele estava fria, porque suas mãos estavam quentes. Fiquei sem jeito.

Ele provavelmente sentiu isso e apertou minha mão com ambas as suas de forma calorosa, quase como se quisesse dizer "Está tudo bem, não se preocupe. E muito obrigado".

Eu não conseguia deixar de olhá-lo nos olhos, olhos de expressão firme e gentil, olhos de alguém feliz, grato, atencioso. Olhos de uma pessoa boa, simplesmente.

Agradeci diversas vezes e me preparei para sair. Levantei e, para minha surpresa, ele levantou junto. Enquanto o staff segurava a porta para que eu saísse, Mana permaneceu ao meu lado e - mais uma vez para minha surpresa - segurou meus ombros entre os seus braços. Em seguida, despediu-se com dois pequenos tapinhas extremamente gentis.

Curvei-me de leve, agradeci mais uma vez e me retirei.

+ o depois:

Do lado de fora uma staff pequena e vestida de lolita me entregou uma sacola com logo da Marui One. Com um sorriso outro staff me indicou a saída que ficava ao lado da Kera Shop Angel.

O sorriso que eu trazia nos lábios deveria ser contagiante porque logo que me viram as pessoas ao redor sorriram junto.

Passei na Kera, totalmente à parte da realidade, mas alerta o suficiente para ver a coleção nova da MmM. Linda, diga-se de passagem. Comprei um colar e resolvi passear pelo prédio um pouco antes de voltar pra casa.

Foi então que me dei conta de algo que até então tinha passado completamente desapercebido. Enquanto tentava focar a mente em alguma coisa e falhava miseravelmente, passei uma das mãos no rosto e senti o famoso perfume. Minha mão estava impregnada por um cheiro agridoce, forte e absolutamente delicioso. Pena que tive que lavar as mãos logo em seguida, porque adoraria tentar encontrar esse perfume em uma das lojas por lá. Se bem que algo me diz que ele pode simplesmente ter mandado fazer...

E assim, com a mesma calma que começou, mais um evento da MmM chegou ao fim. O primeiro de muitos, se depender de mim.

Conhecer o Mana foi uma das melhores coisas que me aconteceram nos últimos anos, e olha que minha vida é cheia de coisas pelas quais sou imensamente grata. Ele não é apenas um artista talentoso e cativante, mas uma pessoa de coração grande que reconhece sentimentos verdadeiros, por mais humildes que sejam. Tenho e sempre tive um orgulho enorme de seguir sua carreira e pretendo fazer isso até quando ele estiver disposto a continuar trabalhando. O que espero que seja por muitos e muitos anos.

Por Sra. Fujiwara (Angelica Louise) às 19:30 do dia 30 de Maio de 2009.

OMAKE

+ Não consegui escrever nada pra ele. Comprei papel, envelope e caneta especial, mas nunca conseguia pôr no papel o que queria dizer. Foi então que decidi que seria melhor falar e agora sou mais que grata por isso.

+ Os 20 minutos de trajeto da minha casa até a estação mais próxima, trajeto esse que faço diariamente, tornaram-se 40 hoje porque eu estava com a mente longe demais para caminhar em um ritmo normal.

+ Por mais que já tenha ido a Shinjuku inúmeras vezes desde que mudei pra cá, hoje tive que perguntar duas vezes para pessoas próximas se estava no trem certo. Graças a Deus ambas eram extremamente simpáticas e conversaram comigo até descerem nos seus respectivos locais de destino.

+ Não consigo lembrar se falei com o Mana apenas em Japonês ou se misturei Inglês no meio. Da mesma forma que não consigo lembrar de detalhes da roupa dele, porque meu olhar estava fixo no rosto e, principalmente, nos olhos.

+ Pela primeira vez na vida me senti desengonçada pela minha altura. Ele não me pareceu muito alto, ainda que tenha quase certeza de que usava plataforma. Quando me segurou pelos ombros percebi que nossa estatura não difere muito, embora eu também estivesse usando plataformas. Seus ombros são relativamente estreitos e seu porte firme.

+ O sorriso dele é absolutamente contagiante e muito meigo. Todas as vezes que ele sorriu não consegui (e nem tentei) deixar de corresponder. Quem disse que o homem não tem expressão? O que ele sempre disse sobre sua timidez subitamente faz todo o sentido do mundo.

+ Tive a impressão de que ele lembrou quando mencionei os presentes. Quando os recebi ele tinha acabado de lançar o DIXANADU, então o nome deve ter chamado a atenção. Ao menos o sorriso e o meneio de cabeça confirmando dão suporte a essa teoria.

+ O 'dear' e o 'Mana' do autógrafo já estavam escritos na foto. Ele só acrescentou meu nome na hora, escrevendo de maneira rápida e firme.

+ Dentro da sacola da Marui One que recebemos tinha uma nécessaire especial da MmM!

+ Tenho quase certeza de que ele reativava o perfume nas mãos antes de alguém entrar. O cheiro na minha mão depois era muito forte pra ser apenas remanescente do perfume dele. Mas não vi nenhuma garrafa na sala, então estou apenas especulando.

+ Essa review foi escrita durante duas horas no Starbucks perto da minha estação, onde tomei um latte quente - minha segunda e última refeição do dia, depois do café da manhã. Não consegui comer mais nada.

+ Desculpem, não pude tirar fotos dos presentes embrulhados e dentro da caixa antes de entregá-los. Mas não se preocupem: tudo foi organizado e feito por uma amiga designer, então estavam perfeitos. Só tive que mudar os envelopes que o Chrysippo mandou porque eles chegaram amassados. Mas foi até melhor porque os envelopes que usei combinavam perfeitamente com o tom de azul da caixa.


Escrito por Sra. Fujiwara. Qualquer dúvida, crítica ou sugestão escreva para webmistress@m10m.com.br

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